"és meu pai (em part-time) o que posso fazer contigo?"
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
natal cancelado
É dia de Natal e, contrariando os tempos em que o sorriso se apoderava da minha face e me iluminava o caminho, não posso correr escadas acima, euforicamente, procurando por ti. A criança que eu fui levou-me a ingenuidade e deixou-me na sombra da tua ausência. Á noitinha, deito a cabeça na almofada molhada e deixo-me ficar, fingindo que num ou noutro momento vais regressar a casa e passar no meu quarto para me fazer uma festinha no cabelo e deixar-me adormecer ao som da tua voz. A tristeza vicia, e eu viciei.A tua assiduidade na minha vida foi diminuindo dia após dia, até que as horas se tornaram em dias, dias semanas e semanas em meses. A minha memória já não se consegue lembrar das tuas feições, dos teus gestos e manias, do teu cheiro. O meu coração limpou todos os vestígios desse crime para que não deixasse qualquer prova. Não vou deixar esta raiva alimentar-me a alma. Sais-te como se fizesse parte da tua rotina abandonar aqueles com quem sempre vives-te e como se cada lágrima que deixei cair perante ti não valesse coisa nenhuma. Há coisas que não podem ser evitadas e degraus que não se podem descer. Não posso regressar á minha infância e dizer-te que és o melhor pai do mundo e que te amo mais do que tudo. Não posso. Tenho pena, mas não posso. Tornas-te os meus medos reais e deixas-te os meus sonhos fugirem-me por entre os dedos. Não me envergonho por tua culpa. Orgulho-me de me manter de pé depois de assistir a todo este filme. Assisto á tua fuga e tenho a certeza que não há volta atrás. Já não te consigo avistar e risquei-te eternamente da minha vida.