sábado, 9 de fevereiro de 2008
Acordei antes de o sol nascer, levantei-me melancolicamente e saí á rua. Caminhei durante horas e horas e sentei-me cansada. Estou sufocada por pessoas, por memórias, pelo tempo. Deixei de conseguir respirar. Apenas o meu corpo responde ao meu cérebro.. estão agora autónomos e nem eles precisam de mim. Não consigo apagar nada, nem um milímetro sequer. Não vou deixar no passado o que está bem presente. Não vou apagar-te de mim como me apagas-te de ti e fingir que nunca me foste nada. Não vou gravar numa cassete as nossas mãos dadas, os nossos abraços, os nossos sorrisos, os teus olhos, a tua voz e o teu cheiro e deita-la fora. Não vou. Porque eu não sou capaz de matar-me, atirando-te para longe. Ao contrário do que tu estás habituado, eu não sou fria e calculista a esse ponto. Sou, com todas as certezas, a pessoa que mais te ama e isso não se apaga como se apagam músicas que já não dizem nada. Quando precisas-te de uma mão, eu dei-te o meu braço e já amputei um por ti. Se os olhos são o espelho da ama, olha bem no fundo dos meus e vê que estão vazios e que aquele brilho que te habituas-te a ver sempre que estavam colocados em ti, desapareceu. Anota bem as minhas palavras porque eu estou cansada de as repetir e de apunhalar o meu peito sempre que o remeto ao passado. Eu não te vou matar porque já te vi morrer nos meus braços, uma vez. Quase morri para te salvar e quando te ergues-te continuas-te a andar. Se um dia te lembrares de quem te deu a mão, volta atrás e sorri com o coração, porque eu, eu não vou ver-te morrer outra vez.