sexta-feira, 21 de março de 2008
Não sei muito bem o que os outros pensam. Nem sequer sei aquilo que penso. Sei o que vejo e o que toco. Conheço a intensidade com que sinto as coisas, as pessoas. Sei aquilo que me dão a conhecer, aquilo que me fazem ver. Desconheço por completo o universo paralelo e por (muitas) vezes tenho vergonha de pertencer a um "grupo" que se diz ser sensível. Que grupo é esse que apenas perfura as ténues camadas que a revestem? Não sinto nada, nem quero sentir nada. Tenho nojo de sentir, de conhecer. De (julgar) conhecer. Não quero conhecer ninguém porque ninguém me conhece. Ninguém reconhece em si as minhas feridas, as minhas mágoas, os meus sorrisos, os meus medos. Não é o facto de ter medos que me torna mais forte. É o facto de os assumir que me torna real. É isso que me torna menos mecanizada do que os outros. Ninguém acompanha a intensidade com que vivo. Ninguém vive ao meu ritmo. Ninguém para/abranda. Ninguém acelera. Esse ninguém que faz tudo menos acompanhar-me, rompeu o brando ritmo que o meu coração acompanhava. Que coração esse? Que ninguém é esse? Que coisa é essa que desconheço e não quero conhecer, mas que me mata? Não me leves tu, ó ninguém, por caminhos incertos e por ruas que nem tu conheces. Não queiras levar o batida da minha vida. Não te queiras prender de alguma forma ao meu olhar e compara-lo com qualquer coisa bonita que ficou perdida na tua infância. Não queiras encontrar isso em mim porque a minha complicação é mais complicada do que eu. Não queiras descomplicar-me ou tentar entender-me. Não. Não queiras descodificar-me. Há coisas que foram feitas para serem deixadas na sombra que perdura entre o todo que se conhece e aquilo que se prefere não conhecer. Não queiras fazer-me conhecer os teus toques, as tuas manias, a forma pausada com que deixas a tua voz fluir, o modo com que te moves. Não queiras que te conheça melhor do que tu mesmo conheces. Não. Não. Não queiras.