sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Existem coisas estranhas, relações estranhas, pessoas estranhas. Na verdade, só deixam de ser estranhas quando alguém se digna a tentar compreende-las, o que raramente acontece, mas frequentemente se diz fazer. Há que mostrar um certo interesse pela coisa, quanto mais não seja para se poder dizer que existe interesse. A amizade, por exemplo, é um tipo de coisa estranha: uma relação estranha entre pessoas estranhas. Esta estranheza pode ser entendida de diferentes formas: uma, a mais natural, consiste numa comunhão de bons sentimentos, uma espécie de moca diária entre duas ou mais pessoas minimamente parecidas e com coisas em comum; duas, a mais habitual, pode ser compreendida como uma espécie de "aliança" entre pessoas que em nada se parecem, mas que pretendem ter alguma coisa em comum, o que pode ser considerada uma conjugação de interesses, em que, na verdade (e queixas à parte), ambas as partes obtêm o que pretendem; três, a mais racional, é quase um contrato rotineiro entre pessoas que se vêm obrigatoriamente e que, muito provavelmente, não têm parecências nem nada em comum (e nem sequer pretendem ter), mas que, por obra do destino se encontram regularmente, sentindo-se na obrigação de chamar alguma coisa àquilo; quatro (e última), a mais temporal, é o tipo de "relação" que já nem relação é, mas que no passado foi (com muita ou pouca intensidade), tornando-se num acto de respeito pelos ditos "bons tempos" entre pessoas iguais que tinham tudo em comum e que já nada têm. No entanto, há sempre uma segunda leitura dos factos: ora, se uma amizade é algo verdadeiro entre pessoas que gostam uma da outra e que pretendem ajudar e ser ajudadas, partilhar momentos e pensamentos e manter-se presente uma vida inteira, então, à partida, as opções 2 e 3 não são consideradas válidas, dado que, contradizem a definição acima referida. A 4ª opção permanece entalada entre o ser e o não ser (eis a questão), até que um dos lados seja escolhido. Afinal, há sempre a possibilidade de duas pessoas que já estiveram enquadradas na situação 1, voltarem a estar, tudo depende da vontade das pessoas e do esforço que estão dispostas a fazer. Na verdade, as coisas são muito simples e as relações podem deixar de ser coisas imensamente estranhas para pessoas como eu. Há que levar cada dia um pouco mais racional que emocionalmente. No mundo em que vivemos, no período em que nos encontramos, pouco é o espaço para as emoções. O truque é saber ser-se racional em questões emocionais.