PAREDES DE COURA
Perfeito! Perfeito! É a única palavra que consegue exprimir um festival assim. Ora então, a viagem foi awesome. Fizemos quinhentos mil quilómetros e depois voltamos para trás porque julgavamo-nos perdidos e, na realidade, estávamos no caminho certo e quase a chegar. Ou seja, demoramos consideravelmente 3h a chegar. Quando isso aconteceu, a Flux e a Luísa já estavam completamente cegas da vida (cláro está). Às 08h30 acordamos com um calor infernal no interior das tendas. Bom, no interior e no exterior. E acordar antes das 13h é feito para mim, acreditem. Fomos tomar o famoso banho ultra-congelado e depois armamo-nos em crentes e fomos tomar o pequeno-almoço à vila. Já me tinha esquecido do quão doloroso era subir aquilo tudo. Mas, de imediato, a minha memória avivou-se (nunca mais lá fomos tomar o pequeno-almoço). Tal como os restantes dias, passamos a tarde no rio (porque era impossível não o fazer). Nesse dia chegou o Vinicíus e como ainda não havia concertos, tivemos que beber para esquecer. E diga-se de passagem que eu bebi forte e feio. A culpa era do raio do garrafão que era bom como tudo. Lá agarraram na guitarra (na cerveja e no vinho) e fizemos um roteiro pelo campismo inteiro a cantar em plenos pulmões. Acabei por conhecer metade dele. Depois de apalpar mamas a insufláveis, de dar tiros com metralhadoras, de beber minis em tudo quanto é lado e de dar quinhentos mil trambolhões, dirigi-me para o acampamento e greguei na tenda. Sim, isto é verídico. Eu greguei na minha própria tenda e fui dormir para a do Vinicíus, onde acordei horas mais tarde sem fazer a mínima ideia de como lá fui parar. Foi óptimo. Eram 10h49 e o Vinicius estava a comer feijoada à transmontana (...sem comentários). Repare-se que não comeu nada o resto do dia (o que se compreende perfeitamente). A rotina de acordar as 8h e ir para o rio até o recinto abrir instalou-se e diga-se de passagem que era a melhor coisa do mundo. Aquele lugar é perfeito, as pessoas são perfeitas, as bebedeiras são perfeitas, até a temperatura é perfeita. É aquela calma que só se interrompe com os "FODA-SE" constantes e com o "TOU CHEIO DE T'OUVIR" e com as chapas daqueles que se atreviam a atirar da gloriosa árvore (e não eram poucos, de todo). Salienta-se o rapaz que esteve em cima do ramo uns 5 minutos a dar lanço e a dizer "AAAHHH" aos berros durante imenso tempo. É certo que conseguiu uma boa audiência que lhe bateu palmas quando, finalmente, teve coragem para saltar. Durante a tarde percebemos que tínhamos um vizinho homossexual que queria comer o Vinícius. Era um bocadinho envergonhado, logo mandou um amigo pedir-lhe a guitarra emprestada. A guitarra! Claro! O que tu queres sei eu, ó BERNARDO! Mas também tínhamos vizinhos fixes! Aqueles que aturavam o Vinícius a beber e a cantar extremamente mal. É que canta mesmo mal e não pensem que é do álcool. Los campesiños foi consideravelmente bom. Gallows foi do caralho! O vocalista é mesmo fofinho e pede para fazerem coisas mesmo do hardcore e fica com aquele sorriso completamente satisfeito na cara. E que puta de circle pit! Jesus! O concerto foi altamente e Enter Shikari foi mais do mesmo. Milhões de vezes melhor do que no Pavilhão Atlântico. Pensava que ía ser uma merda e foi dos melhores do dia. The Cult morreu, completamente. São bons em estúdio (ao vivo, nem tanto). Pelo que soube, Caribou foi ainda pior. Dirigi-me para a tenda, onde estava o Rafa, estendido no chão, imóvel, dado que tinha torcido o pé no circle pit. Eu e o Rui ficamos a fazer-lhe companhia e a beber do famoso vinho verde. Depois chegou o resto do pessoal e foram jogar poker. E isto é a última coisa de que me lembro, dado que fiquei mesmo muito fodida. Demorei 2h a chegar ao recinto; insultei os seguranças por não me deixarem entrar por estar bêbeda; chorei baba e ranho só porque o Rui não podia entrar por minha causa; greguei em tudo quanto é lado; mijei em público (enquanto pedia ao Rui para me segurar); rebolei no monte; caí vinte mil vezes em todos os sítios prováveis e até nos improváveis; não me aguentava em pé e o Rui teve que andar comigo ao colo durante todo o caminho de volta à tenda. O dia seguinte ficou marcado por um episódio hilariante entre dois bêbedos. Um deles deve ter escorregado quinhentas mil vezes e deve ter caído ao rio outras tantas a tentar subir à árvore. "JÉRÉMIÁS, VOCÊ BÉBEÚ?"; "BÉBI!" (só visto). Enquanto o outro (menos bêbedo, mas não muito) estava pendurado num ramo, ele teve a brilhante ideia de se atirar para cima dele para o deitar à água. Bom, digamos que o tiro saiu pela culatra dado que quando ele resolveu saltar, o outro subiu e foi ele a cair ao rio. Ainda tiveram tempo para obrigar todos os campistas que resolviam saltar da árvore a colocar o chapéu de palha com que estiveram a tarde toda. Foi de rir ver dois bêbedos a discutir e a cair sempre que se tentavam levantar. Esse dia ficou ainda marcado pelo facto do Vinicius ter levado com uma massa de malabarismo na cabeça. "Vinicius, estás bem?"; "Estou, não doeu"; "Não doeu?!"; "Ok, doeu". De imediato já tinha três olhos em vês de dois. Klaxons deram o concerto do dia que foi basicamente fenomenal e completamente electrificante. A "Atlantis To Interzone" é perfeita ao vivo. Peter Hook deu o concerto de que me vou lembrar nos próximos mil anos pelo sujeito não saber as letras da sua própria banda. Lamentável, mas ainda assim soou bem. Salienta-se que, num dos intervalos, enquanto estavam milhares de pessoas à nossa volta, o Rui vê o Vinicius e grita "Ó BICHONA!" (ninguem olha excepto uma pessoa; adivinhem quem). Seguiu-se ainda a melhor noite do festival. Chegamos ao acampamento e a nossa tenda estava aberta. Espreitamos e estava quase vazia, as minhas mochilas tinham desaparecido. Primeiro pensamento: roubaram-nos tudo. Depois encontramos coisas nossas na tenda do Vinicius e coisas do Vinicius na nossa tenda. Segundo pensamento: trocaram as coisas de tenda. Depois de tirarmos tudo das tendas surgiu o 3º pensamento: trocaram as tendas de sítio. E foi o pensamento final que se veio a confirmar com a confissão do Jaime. Seguiu-se a vingança. O Rui e o Vinicius pegaram em gel de barbear e encheram a tenda do Álvaro, o saco-cama do Rafa e a cara do Zé. Fecharam tudo e fingiram que não se tinha passado nada. Foi hilariante a cara deles. A 2ª vingança surgiu quando o Vinicius foi ao WC. Pegaram em pasta dos dentes e encheram a guitarra com ela. A Guitarra! A preciosidade do Vinícius. Depois, a Luísa, que há umas horas atrás me tinha dito que eu era linda e que gostava imenso de mim e que nós éramos todos altamente, chegou ao acampamento a dizer que era tudo uma merda e que estava farta de toda a gente e que deviam ir todos à merda (completamente podre de bêbeda). Rapidamente lhe passou tudo e estava já a grizar-se forte e feio, depois do Rui lhe tirar as sapatilhas e de as atirar para o caralho! Seguiram-se as do Rafa, que foram ainda mais para o caralho. Caralho esse que o Rui foi visitar, voltando completamente picado e com uma mini na mão. Os nossos vizinhos eram bastante generosos. Depois andava com um tronco gigante na mão a fazer de pila. Acho que nunca me ri tanto na vida. Estavam todos com uma bebedeira psicológica incrível (excepto a Luísa que essa, não era nada psicológica). Fez um vídeo onde dizia que não era preconceituosa nem nada, mas que a ***** era mesmo muito gorda. E disse que a **** era uma puta e que lhe fodia o corpo se ela revirasse os olhos outra vez. E estava a tentar beber do garrafão, mas que ele "estava estragado" (a cena é que tinha rolha, mas caga nisso. Depois teve uma discussão fantástica com o Rafa sobre o aparecimento de "Janinha". Afinal e, segundo o Rafa, nem sequer me chamo Joana, mas Alice. Faz todo o sentido. E pronto, foi disso a noite toda e nem precisei beber para rir durante horas. O 4º dia do festival passei colada às grades. Estive a assar algum tempo, mas valeu a pena. Dias De Raiva foi altamente. Muita energia, muito boa música, muito mosh e pessoal de Almada. Seguiu-se Jamie T. Foi awesome!! Estavam pedrados e imensamente bêbedos quando entraram e ainda foram buscar uma garrafa de Whisky (que enfrascaram durante o concerto todo). O guitarrista era a coisa mais fofinha do mundo e esteve colado em mim o concerto todo porque eu estive colada nele o concerto todo. E ria-se sempre que olhava e fazia expressões completamente fofinhas. E até levantava a sobrancelha a tocar. Era perfeito. Antes de sair, atirou garrafas de água para o público e atirou uma cerveja para mim (para MIM, claro está). Como quem a apanhou foi um gajo ao meu lado, ele encolheu os ombros e fez uma expressão do género "não era para ti". Um amor! Esquece Flux, ele gosta mais de mim (a). Depois foi Dandy Warhols que foi considervalmente bom e depois de The Specials foi o concerto mais incendiário de sempre! Prodigy e Paredes é perfeito. O palco estava excelente, as luzes e pirotecnia estavam no auge e o som também. O meu cartaz aguentou-se durante a primeira música e pouco mais. Rapidamente foi dobrado, esmagado e calcado, mas não faz mal. O concerto foi excelente e a setlist também. Foi impossível parar um único segundo. Aqueles homens são fenomenais. A simples presença deles em palco causa tumulto. Foi o melhor concerto deles que eu vi, e já lá vão três. Para completar, apanhei uma baqueta deles e estou imensamente feliz. Quando saí do recinto, estava feita num oito. Pisada, soada, esmagada e com mil cabelos a menos. Valeu a pena. Só por aquele concerto, valia a pena ir a Paredes. Mas Paredes é muito mais do que isso. As pessoas são relaxadas, são fantásticas, são bem-dispostas, generosas e prontas a divertir-se. O local é o paraíso. Os concertos são a cereja no topo do bolo. Cheguei há umas quantas horas e já tenho saudades das filas para tomar banho, de pedir pasta dos dentes emprestada, de comer comida de merda, de sentir o cheio a atúm em tudo quanto é tenda, de caminhar quilómetros intermináveis para ver um café, de ver pessoas bêbedas a todas as horas do dia, de dizer "está gelada" sempre que entrava no rio, da nossa mãe, das gajas que dizem "és de onde?" e das que respondem "não" (fantástico), da tenda em forma de Torre de Pisa do Álvaro e da cara da Flux sempre que via uma aranha. ATÉ PARA O ANO, PAREDES!


