Subi o mais alto que pude, talvez para me sentir superior aos outros, talvez para fugir dos meus pesadelos, ou talvez, simplesmente, fugir por fugir.. Esqueci-me que daqui a queda é maior. Achava que ia ter sempre um colchão para que mas aparasse. Mentira. Apertei aquele último abraço na palma da minha mão. Ainda o tenho. Afundei a mão contra o peito e deixei que ele te sugasse, deixei que assimilasse essa memória como fez com o teu olhar, com o teu sorriso, com o teu cheiro, com o teu tom de voz. Deixei que ele levasse tudo o que eu consegui agarrar com a palma da minha mão. Não consigo sentir nada tocável, nada certo. É tudo fachada, tudo teatral. Está tudo na minha cabeça. Cá dentro, grito por alguma coisa, qualquer coisa.. não sei o quê. Sei que não saber nada é melhor do que saber tudo. Caminho, abrandando, vou descendo, vou parando.. Não me deixes parar! Não quero que este chão imundo seja a última coisa que os meus olhos vejam. Deixa-os adorar cada linha da tua expressão. Deixa-me, ao menos uma última vez, sentir o teu abraço.. Não quero partir com as lágrimas nos olhos e uma angústia no peito. Não quero partir com a sensação de que me arrancaram o coração á dentada. Na realidade.. eu não quero partir. Estou apenas a tentar fugir da verdade, mas a mentira torna-se maior do que eu, e a verdade é visível no meu rosto. Hoje ele é tudo o que eu lutei por esconder. Os meus olhos inchados e as minhas mãos vazias.. Perdi tudo o que agarrei com força na palma da minha mão. Atiro as últimas palavras pela janela e fecho-me a 7 chaves, com duas voltas cada, no lugar onde me deixei cair. Já não vejo nada.. o sono pesa-me.. os olhos fecham-se.. não deixes... não me deixes.... (as palavras do seu último sopro fundem-se com a nevoeiro gélido da colina, um corpo cai imune no chão obsceno e pode-se assistir á fuga da alma em direcção ao céu.. venhas tu quando vieres, provavelmente vens tarde demais)